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Tudo o que é habitual tece à nossa volta uma rede de teias de aranha cada vez mais firme; e logo percebemos que os fios se tornaram cordas e que nós nos achamos no meio, como uma aranha que ali ficou presa e tem de se alimentar do próprio sangue. Eis por que o espírito livre odeia todos os hábitos e regras, tudo o que é duradouro e definitivo, eis por que sempre torna a romper, dolorosamente, a rede em torno de si; embora sofra, em conseqüência disso, feridas inúmeras, pequenas e grandes - pois esses fios ele tem que arrancar de si mesmo, de seu corpo, de sua alma. Ele tem que aprender a amar, ali onde até então odiava, e inversamente. Nada deve ser impossível para ele, nem mesmo semear dentes de dragão no campo em que fizera transbordar as cornucópias de sua bondade.
Friedrich Nietzsche. Humano, demasiado humano: um livro para espíritos livres; tradução Paulo Césa de Souza – São Paulo: Companhia das Letras. São Paulo, 2000.
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